A sabedoria da menopausa

As transformações

A mulher ao longo de sua vida passa por várias transformações, tanto físicas quanto psíquicas. Já pararam para pensar como mudar faz parte desse nosso universo? E quantas adaptações precisam ser feitas para nos sintonizarmos melhor com essas necessidades…

Estas modificações são como portas que se abrem para iniciar-nos neste misterioso mundo chamado de feminino. Assim, a mulher se define pelo que é mais profundo nela: a fertilidade, a criatividade, os pressentimentos, os sentimentos e principalmente pelos relacionamentos.

No cotidiano estas mudanças se traduzem em vivências emocionais e em comportamentos tais como menstruar, namorar, fazer sexo, casar, engravidar, envelhecer, amar…

A primeira grande transformação feminina é a menarca (primeira menstruação). A menina sai da condição de criança e “vira uma mocinha”. Não é tão simples como parece, fazer essa passagem e deixar para trás o corpo infantil e enfrentar as exigências biológicas e psicológicas da adolescência.

A mesma adaptação se faz necessária quando depois de mais adulta (pelo menos é o se espera), ela fica grávida. O corpo se modifica e correndo atrás precisa vir a transformação emocional, já que depois de nove meses ela se tornará mãe e que responsabilidade implica este novo papel!

Acelerando a linha do tempo, mais uma grande transformação na vida da mulher: a menopausa. Enquanto menstruar e engravidar são etapas bem vindas e na maioria das vezes ansiosamente esperadas, pois conectam a mulher à fertilidade e à vida, a menopausa é repudiada, pois a esterilidade e as mudanças hormonais do envelhecimento são associadas à falência do feminino.

O medo da perda da juventude

Com a primeira menstruação a “menina fica moça”, e o sentimento que ela tem é que com a vinda da jovem a menina precisa ir embora. Este é o marco do início da adolescência, onde ela precisa lidar com essas perdas (a infância, o corpo infantil…) para poder seguir rumo à vida adulta, adquirindo uma nova identidade para si.

Na menopausa, com o cessar da menstruação, a mulher sente que a jovem é “levada” para longe ficando no lugar dela apenas a “velha”.
As mulheres de hoje conquistaram posições de importância na política e no trabalho. Contudo, embora estejamos obtendo poder de várias maneiras, ainda persiste em nós a idéia perniciosa de que o nosso maior poder é a beleza e a juventude. Assim, o medo maior é o de envelhecer e de nos tornarmos feias, pois mais cedo ou mais tarde, acreditamos que perderemos nosso poder para as mulheres mais belas e mais jovens.

O erro deste raciocínio é que em ambos os casos saltamos de uma extremo para o outro, sem nos lembrar que a sabedoria sempre está no meio do caminho, na união destes opostos.

Adolescência e senescência

Podemos comparar os conflitos que ocorrem na menopausa com uma segunda adolescên

cia, ou melhor dizendo, uma “senscência”.

Psicologicamente todas a mudanças na menopausa ocorrerão na mesma intensidade que já ocorreram na adolescência. Da mesma forma uma nova fase de vida terá que ser encarada e as nossas resistências em enfrentarmos o novo, também aqui se manifestam: medo das mudanças corporais hormonais, vivências estranhas, irritação, incertezas, agitação, tristeza, solidão, labilidade de humor.

Porém, a direção destas forças são praticamente contrárias das que acontecem na adolescência. Enquanto nesta temos que nos adaptar com a expansão de nossas possibilidades físicas e psicosociais (e isto pode assustar), na menopausa o que sentimos diante das modificações do corpo, são suas limitações e diminuição das nossas capacidades e espaços (e isto nos faz sentir medo ou raiva, porque não conseguimos admitir que a juventude está sendo levada de nós).

Mas a menopausa tem uma razão de ser, por trás dela existe uma grande transmutação na identidade da mulher: o amadurecimento que advém da experiência de vida e a oportunidade de tornar-se uma mulher sábia, o que só pode acontecer com o passar dos anos.

A terra que secou

Todavia, vivemos a esterilidade como uma pequena morte, “a terra que secou” e que leva de nós a juventude e a alegria de viver.

O papel da mulher está intimamente ligado à sua capacidade de procriar, de cuidar dos filhos, em ser mãe.

Por ocasião da menopausa, na maioria dos casos, os filhos já estão crescidos e não precisam tanto dos nossos cuidados braçais, sendo que muitos até já se foram de casa. A mulher fica então sem sua “função principal” e sente seu ninho vazio. Sua auto- estima piora ainda mais ao constatar que o marido continua fértil e as marcas do tempo custam mais a aparecer nele.
Nas mulheres que não tiveram filhos, a menopausa é sentida como uma realidade nua e crua: o tempo passou e a oportunidade se foi.

Angustia pela perda da juventude

Assim, se este período não for entendido de uma maneira mais profunda, a mulher tende a se perder em sentimentos e angustias.

Por não entendermos claramente o que se passa conosco, ficamos hipersensíveis, nos recolhemos, nos isolamos e muitas vezes até caímos em depressão. Para evitar sentir tudo isto, o que gostaríamos mesmo, é de ficar eternamente jovens, mas somos humanas e o tempo passa deixando marcas e não podemos escapar disso. E mesmo que tomemos todos os cuidados (cirurgias plásticas, tratamentos cosméticos, lipoaspirações, “malhações”, spas, etc…), para reencontrar com a jovem desaparecida, ainda assim fica faltando alguma coisa, ainda há algo que continuamos a buscar.

Juventude quer dizer o vir a ser, o novo, a criatividade, aquilo que transforma o velho. Portanto é impossível viver separada da nossa jovem sem ter a sensação de que a nossa terra secou, sem que no sintamos desconectatas com o que é de mais profundo em nós: a renovação.

O encontro da jovem com a velha

O que temos que perceber é que não somos mais tão jovens, mas que também não nos tornamos aquela velha carcomida que imaginamos. Que não podemos ser a mesma jovem que fomos no passado, pois o passado não volta. Que reecontraremos sim com nossa juventude, mas esta tem que ser transformada, ou seja, sairá do encontro da jovem e da velha, só assim surgirá uma nova consciência que renovará a nossa vida daí para frente.

Mas, como isto pode ser feito?

Para transformar a nossa jovem, precisamos buscar sentido para as nossas vidas, no passado, rever as alegrias, as tristezas, as oportunidades que conseguimos agarrar e as que desperdiçamos, nos sonhos que realizamos e os que ficaram para trás.

Assim, avaliamos nossas relações, se formam boas ou ruins (com a mãe, com pai, com o marido, filhos…), avaliamos como estamos vivendo agora e o que criamos no passado.

Todas estas experiências deverão viver juntas, teremos que examina-las e reconhecer o devido valor de cada uma e aceita-las. Desta forma, compreenderemos o profundo sentido que todas tiveram em nossa vida e afirmamos o nosso direito de existir ao nosso próprio modo, para viver e desenvolver a nossa personalidade mais autêntica.

A menopausa é então como se fosse um espelho, no qual não podemos deixar de nos ver e de nos apropriar daquilo em que nos tornamos.

Importante é perceber que esse processo todo tem um único objetivo: o perdão que concedemos a nós mesmas e ao que já passou. Com isso nos livramos de toda a carga que possa nos atrapalhar na nova jornada que iniciamos, pois se por um lado metade de nossas vidas já se foi, ainda temos outra metade a ser vivida e desta vez com mais chances de sermos
felizes.

Um novo modo de ser mulher

Então, a “senescência” na menopausa não anuncia apenas a separação entre a jovem e a velha, mas também a necessidade e a possibilidade de seu reencontro. Depois desse processo nos transformamos em uma “jovem/velha sábia”, que nada tem a ver com a figura que temos da velha-bruxa e sim o alento da possibilidade de sempre estarmos conectados com a sabedoria que nos mostra o quanto todas essas situações (juventude e velhice) são humanas e que nunca vamos estar sozinhas, pois estamos todas (nós mulheres) no mesmo barco.

Enfim, a menopausa é uma oportunidade que você tem de descobrir um novo modo de ser mulher, sem precisar mais se definir em relação ao homem (casada/solteira), ou se identificar com o mundo das mães; precisa, sim, aprender a definir a si mesma em relação a si mesma e por si mesma.

teias

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